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No início do século
XX eram concedidos poucos direitos às mulheres portuguesas enquanto
cidadãs, contudo, as mulheres desempenharam um papel importante na
regeneração da nação e na preservação da identidade nacional durante
o período republicano. A obra de Ana de Castro Osório (1872-1935)
escritora, activista dos direitos das mulheres e uma figura de
destaque da cultura luso-brasileira desta época – está intimamente
relacionada com essas temáticas como parte da sua agenda política,
social e cívica. Neste livro, pretende-se demonstrar que na sua
escrita literária e não literária, Castro Osório apela ao
alargamento da educação para as mulheres de todas as classes
sociais. Educadas, as burguesas tornar-se-iam melhores companheiras
dos seus maridos e educariam melhor os seus filhos; as solteiras e
as mulheres das classes mais baixas poderiam exercer uma profissão e
tornarem-se economicamente independentes. A publicista feminista
enaltece particularmente o papel das burguesas enquanto educadoras
das futuras gerações,1 sendo elas responsáveis pela preservação da
identidade nacional. Cabe-lhes, ainda, prevenir a deterioração dos
traços raciais
distintamente portugueses, permitindo às gerações republicanas do
futuro representarem dignamente Portugal. Castro Osório desafia as
mães burguesas a organizarem campanhas de prevenção e erradicação de
doenças, programas para eliminação do analfabetismo, da
prostituição, da vagabundagem e do crime na luta pela salvação dos
mais pobres, educando-os segundo os valores burgueses. Assim sendo,
a sua obra revela propostas construtivas e definidoras de uma
“campaign for the health of the race” (Foucault 1979: 146).
Os seus romances mostram que esse compromisso nacional não se
restringiu ao todo nacional, mas ambicionou abarcar as novas
comunidades portuguesas estabelecidas no Brasil no primeiro quartel
do século XX. Evitar a miscigenação entre os portugueses residentes
nessas comunidades e as pessoas oriundas de outros países europeus
que chegavam à ex-colónia constituiu um dos objectivos da escritora.
Em conclusão, a escrita de Castro Osório representa “a mobile
discourse of empire” (Stoler 1995: 58) que se estende para além das
fronteiras portuguesas e é fruto de uma agenda nacionalista
republicana que deseja fazer de Portugal uma potência mais forte a
nível mundial.
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